O Transtorno do Espectro do Autismo (TEA): Estereótipos, definição e esclarecimentos

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Parte 1: Estereótipos vs. Definição

Comecemos este artigo com a seguinte pergunta: O que é o autismo? Contudo, antes de esclarecê-lo, tratemos de alguns estereótipos que ouvimos por aí, já que o assunto ainda é um tabu (ressaltamos que não há uma ordem de importância). Um primeiro é o de que as crianças autistas “poderiam ser ‘normais’ se tentassem” (grifo nosso). Um segundo é o de que são gênios em alguma área. Um terceiro é o de que não conseguem parar de se movimentar como forma de reação em um ambiente com muitos estímulos. Um quarto, do qual trataremos mais adiante, é que apenas meninos e homens são diagnosticados em detrimento de meninas e mulheres — dentre uma vastíssima lista. Por ora, fiquemos com estes. Será que esses estereótipos são verdadeiros?

Primeiramente, devemos averiguar a definição de autismo — em outras palavras, do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA). Nas palavras de Gomes et al. (2015), o TEA “é considerado uma síndrome neuropsiquiátrica caracterizada por manifestações comportamentais acompanhadas por déficits na comunicação e interação social, padrões de comportamentos repetitivos e estereotipados e um repertório restrito de interesses e atividades”. Até aqui, desconstruímos o primeiro estereótipo apresentado acima: portadores do TEA não “poderiam ser ‘normais’ se tentassem”, até porque se trata de um quadro clínico vitalício. Eles sempre precisarão da intervenção de terapeutas, psiquiatras, fonoaudiólogos e de uma rede de apoio, como família e amigos.

Ademais, também podemos desconstruir o segundo: não se trata de um transtorno uno, e sim de um espectro, como o próprio nome sugere, com três níveis (Figura 1). É notável que portadores de todos os níveis necessitam de suporte, porém a forma desta intervenção é diferente de acordo com a gravidade do transtorno. No Nível 1, o quadro mais brando, o paciente precisa de ajuda no que tange a organização, planejamento e interação; no Nível 2, o quadro intermediário, as dificuldades dizem mais respeito ao seu comportamento e sociabilidade; já no Nível 3, o quadro mais severo, persistem dificuldades linguísticas, sendo imprescindível a intervenção de um fonoaudiólogo, e comportamentais, até mesmo para expressar as necessidades mais básicas. Resumindo: Não tem nada a ver com “ser um gênio em alguma coisa” (grifo nosso).

Figura 1: Níveis do Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) | Fonte: Neuroscience Unlimited.

Sobre o terceiro estereótipo, o de se movimentar em demasia, é verdadeiro, haja vista que se trata de um sintoma de autismo, sendo parte integrante de sua personalidade. Quando exposto a ambientes com bastante estímulo, como locais lotados e barulhentos, o indivíduo autista pode sentir-se ansioso e agitado, balançando seu corpo para frente e para trás repetidamente e torcendo as mãos e os dedos; ou, ao contrário, devido ao desregulamento emocional típico do transtorno, pode não experimentar medo em situações de perigo. O quarto estereótipo será tratado na Parte 3.

Discorremos brevemente do que se trata o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) após desconstruirmos alguns de seus estereótipos. A Parte 2 seguirá com o quadro brasileiro do TEA.

Parte 2: O autismo no Brasil

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), uma dentre cada 160 crianças é portadora de autismo. A Assembleia Legislativa de São Paulo declara que “[n]o Brasil, os dados ainda são muito limitados, mas informações do Censo Escolar mostram que o número de alunos com autismo que estão matriculados em classes comuns no Brasil aumentou 37,27% entre os anos de 2017 (77.102) e 2018 (105.842)”.

Em 18 de Julho de 2019, foi sancionada a Lei nº 13.861/2019, alterando a Lei nº 7.853, de 24 de outubro de 1989, para incluir informações específicas sobre o TEA nos censos demográficos brasileiros. Contudo, trazemos a vocês, caros leitores, uma notícia não muito agradável: Segundo o G1, devido à pandemia do novo Corona vírus, não foi realizado Censo em 2020, e, portanto, a coleta foi adiada para entre 1º de agosto e 31 de outubro de 2021. Diante da ausência de dados mais atuais, discorramos sobre aqueles referentes a anos anteriores.

Em 2010, estimava-se cerca de 500 mil crianças autistas, conforme Gomes et al. (2015). Os mesmos autores ressaltam a Diretriz de Atenção à Reabilitação da Pessoa com TEA, publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2013. O documento, cuja versão um pouco mais atualizada (2014) está disponível aqui, visa assistir aos profissionais da Rede SUS para cuidar dos pacientes diagnosticados com TEA. Ele faz um apanhado sobre o transtorno, como foi descoberto, e passa para outros pontos, dentre os quais destacamos o diagnóstico e a habilitação/reabilitação.

A Revista Autismo publicou, em março de 2019, um mapa em seu site com estudos sobre TEA realizados no mundo. A partir dos anos 2000, a maioria dos estudos foi feita nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, seguidos da Índia e da Austrália. No Brasil, há um único ponto no mapa — um estudo realizado no ano de 2011 (Paula C.S. et al., 2011).

Diante destas informações, observa-se a escassez de estudos realizados em território brasileiro — e, para o interesse do presente artigo, principalmente com dados mais atuais. É urgente a realização do Censo 2021, estando em vigor a Lei nº 13.861/2019. Até lá, é possível que o Brasil continue usando dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), uma agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, sediada na Geórgia. É com base nestes dados que introduziremos a Parte 3.

Parte 3: Meninos vs. Meninas: Desconstruindo o estereótipo de gênero

Iniciamos este artigo listando, na Parte 1, alguns estereótipos no que concerne o Transtorno do Espectro Autista (TEA), e deixamos o último deles para ser discutido mais a fundo aqui e agora.

A Autismo e Realidade, uma ONG de São Paulo formada em 2010 que produz cartilhas para auxiliar as pessoas a cuidar de autistas, divulgou em maio de 2020 que o número de meninos diagnosticados com TEA é quatro vezes superior ao de meninas com o mesmo transtorno. Segundo um documento do CDC, uma a cada 166 pessoas viviam com a condição, e, em 2018, uma a cada 59 portavam-na. Dois anos depois, este número chegou a 1 a cada 54.

“Na pesquisa atual, há o resultado de que para cada 1 menina com TEA, há 4 meninos com TEA”, declara a organização em seu site. Contudo, esta fonte não dispõe de dados que amparem essa afirmação. Sendo assim, a partir de agora, consideremos o estudo de Schuck, Flores e Fung (2019). Segundo estes autores, um entre 38 meninos e uma entre 152 meninas de oito anos de idade é diagnosticado(a) com TEA (Baio et al., 2018). Este estudo corrobora a afirmação publicada no site da Autismo e Realidade: há uma proporção de 4:1 para meninos e meninas com TEA, somando a informação de quociente de inteligência (QI). Os meninos considerados neste cálculo possuem QI alto ou moderado.

Para os autores, há dois possíveis vieses para a diferença entre sexo/gênero de pacientes com TEA. Isso significa que as meninas precisam exibir um número maior de sintomas de TEA, ou de maneira mais intensa, para serem diagnosticadas com o transtorno, haja vista que os instrumentos utilizados para diagnóstico foram originalmente testados em meninos (Kreiser e White, 2014). Além disso, as meninas também podem camuflar seus sintomas muito mais do que os meninos (Hull et al., 2017b). Em outras palavras, a detecção dos sintomas de TEA nas meninas é mais difícil de ser feita do que nos meninos, e elas deveriam, idealmente, ser mais ostensivas na demonstração de sintomas a fim de receberem o diagnóstico adequadamente.

Resumindo: Ainda que seja mais difícil detectar, existe, sim, uma população feminina com autismo que merece atenção. Portanto, o quarto estereótipo está oficialmente desconstruído e podemos corrigi-lo: a população masculina diagnosticada com TEA é maior devido a vieses.

Adiante, a Parte 4 tratará das possíveis causas, principais sintomas e possibilidade de cura.

Parte 4: Causas, sintomas e cura

O que causa o TEA?

Segundo o CDC, não se conhece todas as causas do transtorno em questão. Existem, porém, fatores que podem contribuir para as chances de uma criança nascer com TEA, sendo eles genéticos, ambientais e biológicos. O fator de risco mais forte, segundo especialistas, é o genético. Ter pais mais velhos, ou ter irmãos com a síndrome, além de condições genéticas ou cromossômicas, como Síndrome do X-Frágil, aumentam as chances de a criança nascer autista. Sobre os demais, a ingestão de certas substâncias durante a gravidez, como ácido valproico, também pode estar relacionada ao risco de TEA. Outro fator de risco é um período crítico antes, durante e imediatamente após o nascimento. Estudos provam que não há relação entre vacinas e as causas de TEA. A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) também corrobora aqui essa informação.

Quais os principais sintomas?

Ainda que existam os três níveis de autismo conforme mostrados na Figura 1 e também diferenças individuais, é fato que todos os pacientes autistas enfrentam dificuldades interativas e comportamentais e precisam de intervenção em maior ou menor grau. Ao interagir com as pessoas, portadores de TEA têm dificuldade em fazer contato visual e estabelecer amizades, evitar contato afetivo, comportamentos repetitivos e não perceber “deixas” sociais[1].

Durante a comunicação, evitam falar, mesmo sabendo fazê-lo. Por terem comportamentos repetitivos, podem repetir uma pergunta várias vezes. Se uma criança autista não percebe “deixas” sociais, não vai perceber que, ao fazer a mesma pergunta várias vezes em um tom monotônico para a mesma pessoa, essa pessoa virará os olhos em sinal de incômodo. Essa criança não aprende este comportamento, logo, também não aprende a reproduzir tais “deixas”, tendo um repertório linguístico verbal e não-verbal bastante restrito. Também já mencionamos o estereótipo verdadeiro, o de se movimentar demasiadamente quando se sente ansiosa e, em outras situações, como as perigosas, ter seu medo anestesiado.

No que se refere ao autismo em adolescentes e adultos, manifesta-se de forma bem mais leve do que em crianças. Nestes casos, apresentam um comportamento solitário e sedentário, preferindo realizar apenas atividades de seu interesse. Observa-se também maior tendência para depressão e ansiedade. Se juntarmos tudo isso, obtemos um complicador para os jovens em idade de trabalhar, posto que apresentam, além de dificuldades sociais, falta de autonomia para tal.

Existe cura?

Não, não existe. Trata-se de uma condição vitalícia, sempre bastante desafiadora para seus portadores e cuidadores. É necessário ter uma rede de apoio, como familiares e amigos, mas isso não dispensa intervenção médica adequada. O Instituto Nacional da Saúde da Criança e do Desenvolvimento Humano Eunice Kennedy Shriver [2] lista algumas formas de tratamento, como a Terapia Cognitivo-Comportamental, a Terapia Ocupacional, a Fonoterapia, a medicação, dentre outras. Contudo, os pais e cuidadores devem estar atentos, pois cada criança responde a estes tratamentos à sua maneira.

Conclusões

Vimos que existem estereótipos quanto ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), e apresentamos, na Parte 1, quatro deles. Os dois foram imediatamente desconstruídos, o terceiro foi provado verdadeiro e o quarto mereceu a Parte 3 a fim de esclarecer sua falta de sentido. A Parte 2 tratou do quadro no Brasil, ressaltando a escassez de dados atuais disponíveis para discussão. A Parte 4 elucidou, na forma de perguntas, as possíveis causas, sintomas e formas de tratamento, uma vez que não existe cura para o TEA.

Uma vez que não existe cura para o autismo, pois se trata de uma condição vitalícia, é necessário ter uma rede de apoio, como familiares e amigos, que não dispensa intervenção médica adequada, como Terapia Cognitivo-Comportamental, a Terapia Ocupacional, a Fonoterapia, a medicação, dentre outras [2]. Contudo, os pais e cuidadores devem estar atentos, pois cada criança responde a estes tratamentos à sua maneira.

Bibliografia

Baio J, Wiggins L, Christensen DL, Maenner MJ, Daniels J, Warren Z, Kurzius-Spencer M, Zahorodny W, Robinson Rosenberg C, White T, Durkin MS, Imm P, Nikolaou L, Yeargin-Allsopp M, Lee LC, Harrington R, Lopez M, Fitzgerald RT, Hewitt A, Pettygrove S, Constantino JN, Vehorn A, Shenouda J, Hall-Lande J, Van Naarden Braun K, Dowling NF MMWR Surveill Summ. 2018 Apr 27; 67(6):1–23.

GOMES, Paulyane T.M. et al . Autismo no Brasil, desafios familiares e estratégias de superação: revisão sistemática. J. Pediatr. (Rio J.), Porto Alegre , v. 91, n. 2, p. 111–121, Apr. 2015 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0021-75572015000200111&lng=en&nrm=iso>. access on 01 Apr. 2021. https://doi.org/10.1016/j.jped.2014.08.009.

Hull L, Petrides KV, Allison C, Smith P, Baron-Cohen S, Lai MC, Mandy W J Autism Dev Disord. 2017 Aug; 47(8):2519–2534.

Kreiser NL, White SW Clin Child Fam Psychol Rev. 2014 Mar; 17(1):67–84.

Paula CS, Ribeiro SH, Fombonne E, Mercadante MT. Brief report: prevalence of pervasive developmental disorder in Brazil: a pilot study. J Autism Dev Disord. 2011 Dec;41(12):1738–42. doi: 10.1007/s10803–011–1200–6. PMID: 21337063. (Em inglês)

Schuck, R. K., Flores, R. E., & Fung, L. K. (2019). Brief Report: Sex/Gender Differences in Symptomology and Camouflaging in Adults with Autism Spectrum Disorder. Journal of autism and developmental disorders, 49(6), 2597–2604. https://doi.org/10.1007/s10803-019-03998-y (Em inglês)

Diretriz de Atenção à Reabilitação da Pessoa com TEA

https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_atencao_reabilitacao_pessoa_autismo.pdf (2014)

https://www.nichd.nih.gov/health/topics/autism/conditioninfo/treatments (Em inglês) (31/01/17)

https://www.paho.org/bra/index.php?Itemid=1098 (04/17)

https://neuroscienceunlimited.wordpress.com/2018/03/27/on-the-spectrum-an-introduction-to-autism-spectrum-disorder/ (Em inglês) (27/03/18)

https://www.revistaautismo.com.br/geral/quantos-autistas-ha-no-brasil/ (01/03/19)

https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/03/17/censo-e-adiado-para-2021.ghtml (17/03/20)

https://www.al.sp.gov.br/noticia/?18/03/2020/opiniao---o-autismo-no-brasil (18/03/20)

https://www.cdc.gov/ncbddd/autism/facts.html (Em inglês) (25/03/20)

https://autismoerealidade.org.br/2020/05/29/novo-documento-afirma-que-1-em-cada-54-pessoas-possui-tea/ (29/05/20)

https://www.cdc.gov/vaccinesafety/concerns/autism.html (Em inglês) (25/08/20)

https://zenklub.com.br/blog/saude-bem-estar/autismo/ (01/03/21)

Notas

[1] Do inglês social cues — sinais feitos através de linguagem corporal e no nível prosódico de fala, como um momento para rir ou uma mensagem expressa em tom sarcástico.

[2] Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Health and Human Development, do inglês (tradução nossa)

Escrito por Izabella Rosa Malta
Publicado por Bianca Miconi

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